Às vezes uma empresa de games tem uma ideia inovadora, que pode trazer evoluções (e, dependendo do caso, até revoluções) para a indústria de games em geral. Mas nessa era em que as notícias – inclusive as falsas – são disseminadas tão rapidamente, grandes e pequenos deslizes podem destruir a reputação de um jogo para sempre. Foi o que aconteceu no ano de 2014 com Driveclub, um dos melhores jogos de corrida dessa geração (para quem deu uma chance a ele).

Além de diminuir a ansiedade dos jogadores pelo lançamento de Gran Turismo Sport, que ainda levaria mais três anos, Driveclub tinha a tarefa de se mostrar como uma nova franquia exclusiva de corrida para o PlayStation, para atrair os jogadores que curtem uma diversão mais descompromissada. Em resumo, ele teria que ser um bom concorrente para Forza Horizon, franquia que vem dando muito certo desde 2012. Mas problemas atrás de problemas, antes e depois do lançamento, impediram o jogo de se tornar respeitado e merecedor de uma sequência.

O antes

De fato, tudo parecia estar se encaminhando para que surgisse uma nova série de sucesso. A Evolution Studios já havia provado sua competência no território das corridas off-road, com os jogos da franquia WRC no PlayStation 2, e a série MotorStorm no PS3. Driveclub foi a primeira empreitada do estúdio em um jogo de corrida com supercarros e hipercarros, e eles se dedicaram a fazer algo primoroso.

Os carros traziam detalhes impressionantes: 260.000 polígonos em média, cada um levando até 7 meses para ser finalizado. Cada material diferente era reproduzido fielmente, da trama da fibra de carbono às diferentes partes da camada de tinta. 16 microfones para a gravação do som real dos carros, que se adaptava no jogo de acordo com a câmera que você estivesse usando. Sons tão realistas que a BMW e a Mercedes-AMG solicitaram cópias para substituir seus bancos de dados!

A busca pelo realismo não se resumia aos carros: Driveclub não tinha circuitos reais, porém as pistas eram baseadas em dados de alta resolução da NASA para recriar os ambientes de 6 países, cada um com seus circuitos fechados, circuitos de rua e também dentro de ambientes urbanos. As nuvens não eram apenas texturas: eram modelos 3D que faziam a luz do sol mudar realisticamente. A flora e fauna de cada pista era coerente com o país e com o horário da corrida.

E a chuva… meu Deus, a chuva.

Mas nem só de gráficos viverá o homem: Driveclub queria ser diferente, algo como uma “rede social” em forma de jogo. O “club” do nome se refere aos clubes de até 6 jogadores que podiam ser formados. A ideia era contribuir para que seu clube se tornasse famoso na comunidade através dos Pontos de Fama, que eram obtidos correndo e completando desafios contra outros clubes.

Tudo parecia se encaminhar para que surgisse uma nova franquia de sucesso nos jogos de corrida, capaz de competir contra os nomes já consolidados no mercado. Mas muitas coisas deram errado – justamente as que não poderiam dar errado.

O durante

Primeiramente, Driveclub seria lançado junto com o PS4, em novembro de 2013. Mas o jogo sofreu vários adiamentos e só foi finalmente lançado em outubro de 2014. Isso não seria um problema tão grande, caso o jogo justificasse os adiamentos com uma experiência satisfatória.

Entretanto, nos dois primeiros meses após o lançamento, era impossível se conectar aos servidores. Isso prejudicou praticamente metade do jogo: era muito difícil conseguir criar clubes, competir nos desafios ou simplesmente jogar online contra outras pessoas. Todos esses aspectos foram muito enfatizados nas propagandas antes do lançamento, e o fato de que em 90% do tempo nada disso funcionava como deveria deixou uma imagem muito negativa para a imprensa e para o público, apesar das suas qualidades técnicas.

Outro problema foi o adiamento da versão gratuita para assinantes da PS Plus. Não era exatamente uma demo, mas uma versão menor do jogo, com 20% do conteúdo total, e quem a baixasse poderia jogar com quem comprou a versão completa (em lobbies específicos). Essa versão deveria estar disponível para todos os assinantes no lançamento, mas foi adiada por vários meses até que os problemas do online fossem consertados.

Foi uma enxurrada de má sorte que gerou uma má reputação, mas mesmo assim Driveclub vendeu bastante. Em janeiro de 2019 foi estimada uma base de 10,5 milhões de jogadores. Talvez a falta de opções no início da geração, principalmente a ausência de um jogo da série Gran Turismo até o fim de 2017, tenham contribuído para alavancar suas vendas, apesar dos problemas.

O depois

A Evolution Studios se esforçou muito para compensar a experiência ruim do lançamento: lançaram uma DLC gratuita adicional, corrigiram todos os problemas do online, colocaram conteúdo adicional todos os meses após o lançamento (tanto pago quanto gratuito), lançaram a versão Plus, a versão em realidade virtual (VR) e também a expansão Driveclub Bikes, trazendo a experiência de motos superesportivas dentro do jogo.

Nada disso foi suficiente, pois em março de 2016, inesperadamente, a Sony decidiu fechar o estúdio. Os servidores continuaram funcionando para quem quisesse jogar online.

Entretanto, aos poucos o suporte está sendo retirado: em agosto de 2019 o jogo e todas as suas versões e DLCs foram retirados da PlayStation Store, e no próximo dia 31 de março os servidores serão totalmente fechados, dando fim a uma história de 5 anos que poderia ter se estendido por muito mais tempo.

Felizmente os desenvolvedores estão agora na Codemasters, a gigante responsável pelas franquias DiRT, GRID e F1, mais especificamente dentro da Slightly Mad Studios, estúdio da série Project CARS, que foi adquirido recentemente pela Codemasters.

O futuro

Eu acredito que não haverá outra experiência tão marcante quanto Driveclub. Foi a primeira vez que eu joguei online, e o primeiro jogo que me impressionou com seus gráficos depois de Gran Turismo 4.

É triste ver Driveclub ser esquecido por causa dessa tremenda maré de azar. Por mais que eu quisesse que a história fosse diferente, e que fosse lançado um Driveclub 2 com mais pistas e carros, ou quem sabe até um mundo aberto como em Forza Horizon ou The Crew, tenho que admitir que também foi culpa da própria Evolution Studios, por ter criado expectativas enormes e não conseguir atendê-las.

Espero que algo similar seja lançado na próxima geração. Existem os rumores de um Test Drive Unlimited 3, que parece ser o mais próximo disso. Fico no aguardo, e dou adeus a Driveclub, o melhor jogo de corrida que não deu certo.

Você jogou Driveclub? O que achou? Deixe sua opinião nos comentários!